Tinha uma pintura, na recepção de uma empresa onde trabalhávamos, que retratava um pescador solitário em primeiro plano. A imensa paisagem de um lago dominava o resto da obra, limitada pela moldura barata que coube no orçamento para decorar o ambiente.
Sempre que batíamos o ponto, lá estava o pescador e suas rugas de esforço ao redor dos olhos. Sem peixe ou qualquer outra companhia a bordo, confinado aquele lugarzinho infértil diariamente.
De certa forma, imaginar que nossas vidas caminhavam para a mesma estagnação fez com que acelerássemos a ideia de embarcar no nomadismo digital.
Mas logo descobrimos que existem diversos desafios em ser nômade digital e podem se transformar em verdadeiros obstáculos sem o devido cuidado.
Afinal, não basta remover a moldura que sentíamos nos aprisionar se ainda não estávamos prontos para sair da zona de conforto e explorar o desconhecido.
Hoje, entendemos melhor como é a vida do nômade digital e os riscos desse estilo de vida.
Por isso, queremos compartilhá-los com você, que também deseja trabalhar de qualquer lugar. Veja alguns problemas do trabalho remoto e as soluções para ser um nômade digital sem arrependimentos!
Os desafios de ser nômade digital
Home office e trabalho remoto chegaram para ficar, aparentemente. Por causa da pandemia, 85% das empresas brasileiras recorreram ao modelo de trabalho à distância. E, atualmente, 66,3% dos profissionais seguem à procura de oportunidades de trabalho que ofereçam essa flexibilidade.
Mas apesar de atraente e cheio de benefícios (como evitar engarrafamentos só para ir à empresa), trabalhar remotamente tem as suas armadilhas. Por exemplo:
- dificuldade de conciliar a vida pessoal e o horário de expediente;
- distrações de todos os lados;
- infraestrutura precária;
- falta de motivação sem a dinâmica vivida em um escritório;
- falta de convívio social com os colegas de trabalho.
Isso pode criar um contrapeso para quem só vislumbra a liberdade e flexibilidade do trabalho remoto. E o mesmo acontece com o nomadismo digital.
Mesmo que você pesquise pelos melhores lugares para nômades digitais desembarcar, alguns problemas podem surgir no horizonte. Estamos todos sujeitos a nos deparar com eles.
Daí, a importância em conhecê-los. Sabendo quais são esses desafios do nômade digital, você pode desenvolver seu autoconhecimento para aprender a evitá-los (ou superá-los). Vamos a eles!
1. Isolamento físico e emocional
Você não precisa ir até o outro lado do mundo para ser um nômade digital. Mas se você pretende transformar em hábito os embarques e desembarques internacionais, é possível que você se isole — física e emocionalmente — dos entes queridos.
E pode ser um baque perceber-se a milhares de quilômetros de conhecidos. Especialmente, quando você (ou eles) precisa de um abraço e a distância está além do seu alcance.
Só que existe uma maneira simples de amenizar esse desafio do nomadismo digital. E é a mesma solução que tanto possibilita você de trabalhar de qualquer lugar: a tecnologia.
Os aplicativos de mensagem instantânea, como o WhatsApp, e videochamadas são ótimas maneiras de estar sempre em contato com todos. As redes sociais também ajudam a acompanhar o dia a dia de amigos e familiares.
Não é a mesma coisa, é claro. Além disso, você pode perceber que algumas relações vão se tornar tão distantes quanto os quilômetros que os separam.
Talvez, faça parte dessa mudança.
Talvez, seja uma forma de compreender quem você realmente deseja que participe da sua vida. E vice-versa.
Em todo caso, você aprende a cultivar as grandes relações na sua vida e começa, gradualmente, a se conectar com mais pessoas em torno da sua atual rotina.
2. Tudo é passageiro, nada é permanente
Apesar de redundante, esse título carrega uma verdade que nem sempre estamos preparados para absorver: o cenário de mudanças constantes pode ser assustador.
Queira ou não, existe conveniência na rotina que a gente constrói. É a tal da zona de conforto.
Dessa maneira, podemos nos agarrar à sensação de que se tudo permanece igual, tudo está como deveria ser ou estar. E muita gente pensa que viver uma vida de viagens é suficiente para deixar todo esse comodismo para trás.
Daí, o engano. Pois esse se mostra um grande desafio para o nômade digital quando, de repente, tudo é transitório ou novidade na sua rotina.
Existem lembretes diários disso: não dá tempo para um travesseiro se adaptar às suas preferências de sono; os aromas e sabores de um restaurante são constantes memórias afetivas; você se confunde na hora de agradecer, com o câmbio, trocados, preços no supermercado…
Por mais que os nômades digitais procurem mudanças (e se estimulem com elas), o excesso pode sobrecarregar. E é importante reconhecer o sinal para desacelerar e, talvez, encontrar um ritmo apropriado para absorver e curtir as novidades.
Vale mencionar, também, as amizades e relações construídas no caminho. Elas tendem a ser dinâmicas porque, provavelmente, seu caminho vai cruzar com o de outros nômades digitais. E as despedidas vão ser frequentes no vocabulário.
Mas a gente vê isso como um desafio do nomadismo digital, sim, mas também como um dos prazeres desse estilo de vida.
Afinal, conectar-se com mais pessoas — mesmo para introvertidos como nós —, é outra forma de conhecer o mundo. E isso só tem a agregar às experiências que desejamos experimentar.
Até nos lembrou uma frase linda d’O Pequeno Príncipe:
A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar
E isso é emocionante demais!
3. O equilíbrio da vida pessoal e profissional
Esse foi um dos quebra-cabeças mais difíceis de resolver quando começamos a viajar e a trabalhar como nômades digitais. Afinal, a mudança e a sensação de novidade eram ansiosamente aguardadas por nós.
Justamente por isso, foi difícil balancear o trabalho com a vontade de explorar os locais que visitávamos. Parecíamos turistas no último dia de férias.
Depois de passar por Japão, Coreia do Sul, China, Hong Kong, Macau, Malásia e Cingapura em pouco mais de 90 dias, estávamos exaustos.
Inclusive, conhecemos nômades digitais com histórias similares: na ânsia de aproveitar o mundo de novidades, não sobrava tempo para trabalhar.
Ou o oposto, o que é igualmente frustrante. Por isso é tão importante encontrar o seu ritmo.
Aprender como ser nômade digital é um processo e você vai se adaptando para definir prioridades, urgências, trabalho e lazer.
E sempre lembramos de algo determinante para nos motivar a encontrar esse equilíbrio: só seguimos viagem porque estamos trabalhando.
E trabalhamos para seguir viagem.
Então, tomamos o tempo necessário para finalizar o que deve ser feito e experimentar tudo aquilo que queremos em cada lugar.
4. Infraestrutura adequada para o nômade digital
Durante parte da pandemia da Covid-19 tivemos um privilégio único: nos hospedamos de frente para o belíssimo mar de Saracen Bay — uma ilha no Camboja — a um preço baixíssimo.
E ao longo dos nove meses que ficamos por lá, o país sofreu com o avanço da doença. O que motivou à quarentena da ilha e ao abandono de pessoas que viviam/se hospedavam por lá.
Para nós, aquilo estava relativamente “bem”. Afinal, tínhamos internet para trabalhar, a ilha é espetacular e encontramos um espacinho seguro dentro do país. Até que o pouco comércio ainda ativo começou a fechar as portas, e passamos a ter internet e energia elétrica racionadas.
Foi difícil lidar com as demandas de trabalho nesse período. E é claro que esse é um exemplo drástico, mas o nômade digital deve se atentar a isso antes de desembarcar em um novo local.
E não apenas em internet. O local onde você vai se hospedar/morar deve ter o mínimo de infraestrutura para você trabalhar com ergonomia. Também vale observar se existem locais ao redor que sejam apropriados para trabalhar, como cafés e espaços de coworking.
Leve em conta, ainda, as características do seu trabalho. Nós trabalhamos com produção de conteúdo, então não precisamos da conexão de internet mais veloz. O que talvez não seja o caso para quem produz vídeos, por exemplo, e lida com uma transmissão mais robusta de dados.
Por fim, avalie como você costuma “funcionar” em diferentes situações. Evite hostels com muitas festas e distrações se você necessita de silêncio e alta concentração para trabalhar, por exemplo.
5. Senso de propósito
Muita gente que ainda não sabe o que é nômade digital pode romantizar a ideia de viajar o mundo sem levar em consideração as características do próprio trabalho.
E se frustram, lenta ou rapidamente.
Também tem aqueles que viajam sem parar. E quando menos esperam, o próximo embarque ganha um gostinho amargo de repetição, fazendo com que as novidades deixem de encantar.
Daí, a importância em ter um senso de propósito. Pois de nada adianta remover as molduras que nos aprisionam se nem mesmo saberíamos para onde ir se tivéssemos a oportunidade.
Uma solução, enquanto planejávamos nossa viagem por conta, foi dividir cada etapa da jornada por continente. Assim, sabíamos do que estávamos “fugindo” e o que queríamos “encontrar”.
Nosso senso de propósito era fazer da viagem ao mundo uma rotina. E nosso trabalho como nômades digitais era o meio para isso. Depois, só precisamos encontrar o ritmo ideal para conciliar trabalho, viagens e as experiências que nos permitirmos vivenciar.
E você, já sabe qual é o seu senso de propósito para se tornar nômade digital?
6. Alinhamento com o mercado de trabalho
Entre os desafios do nômade digital, esse é um dos que podem bater à porta antes mesmo de tirar o passaporte e iniciar sua jornada: seu trabalho remoto permite viver no nomadismo digital?
Hoje em dia, é fácil responder “sim”. O mercado de trabalho tem preferido o home office e o trabalho híbrido e existem diversas formas ganhar dinheiro como nômade digital.
Além do trabalho fixo para empresas, em modelo 100% remoto, você pode empreender à distância ou mesmo investir no trabalho freelancer como seu modelo de carreira.
Já vimos todos esses perfis na estrada:
- empresários que deixaram seus negócios “redondinhos” para serem geridos de outro país;
- freelancers fazendo malabarismo com demandas, prazos e prospecções;
- trabalhadores com horários fixos;
- trabalhadores com horários flexíveis.
Nós acreditamos que ser nômade digital vale muito a pena! E para todas essas possibilidades há um meio de driblar o desafio e projetar, gradativamente, seu planejamento para seguir viagem.
7. Compreender seu corpo
Começamos nossa viagem na capital do Japão, Tóquio, em março de 2019. E como dissemos lá em cima, quando completamos quatro meses de estrada estávamos exaustos.
Viajar cansa — e esse é um delicioso privilégio, mas que pode se transformar em um tormento real e perigoso se você não se atentar a isso.
Sempre fique de olho no que seu corpo e mente estão dizendo. Porque, diferentemente do itinerário da vida fixa, o nomadismo digital tem sempre pelo menos um convite para fazer.
Olha só alguns exemplos do que pode acontecer em uma terça-feira qualquer: um convite para descansar à beira-mar, visitar cidades remotas, fazer trilhas longas e extenuantes, passar o dia gastando a sola do tênis, curtir festas e pessoas, conhecer pontos turísticos, comer e beber com os locais, atravessar centenas de quilômetros até um novo destino… E trabalhar.
Sem equilíbrio, o nomadismo digital pode não ser sustentável pela sua queda em produtividade e também por uma questão de saúde. Mas dá para tornar o estilo de vida viável e, inclusive, acompanhado de muita qualidade de vida. Veja algumas indicações:
- hidrate-se;
- tenha horas regulares de sono;
- carregue alimentos para beliscar entre as refeições (como nuts ou frutas);
- faça caminhadas — o que um nômade digital já pende bastante ao hábito;
- experimente meditar;
- planeje dias de repouso — nada de trabalho ou viagem.
Outra dica: o seguro viagem é um grande aliado do nômade digital. E entendemos que o serviço mais parece uma despesa extra, mas esse dinheiro é bem revertido diante de necessidades emergenciais.
Também leve em consideração que quase 50 milhões de pessoas têm planos de saúde, no Brasil. Ao ser nômade digital, você precisa carregar tudo aquilo necessário para facilitar sua rotina. E o seguro viagem faz parte relevante desse processo.
8. Renda mensal x orçamento de viagem x demanda de trabalho
“Quanto ganha um nômade digital?” é uma das perguntas que mais recebemos.
E detestamos responder assim, mas depende.
Afinal de contas, sua renda realmente depende de diversos fatores. Por exemplo:
• seu ramo de atuação;
• sua experiência na área;
• seu modelo de trabalho — seja como freelancer, funcionário fixo ou empreendedor;
• o tempo que você vai dedicar às suas atividades profissionais.
Também é difícil destacar um valor exato para viver como nômade digital. Pois isso é uma característica pessoal. Você pode se recusar dormir em hostels ou detestar a comida local de um país que você vai passar alguns meses.
O seu perfil de viajante, planejamento como nômade digital e até seu roteiro de viagem vão influenciar no orçamento mensal. E, consequentemente, na sua projeção de renda.
E isso já pode ser um grande desafio para o nômade digital, mas vai além. Especialmente — como é o nosso caso —, se você trabalha como freelancer.
Afinal, a previsibilidade de renda é bastante instável porque a demanda pode diminuir de uma hora para a outra. E sem aviso prévio, muitas vezes.
Ou se você adoecer e reduzir a carga de trabalho, isso vai refletir na sua renda. Então, é importante estar de olho no mercado e em oportunidades para cumprir sua média de renda.
A reserva de emergência é outro aspecto fundamental para cair na estrada.
Um exemplo: o computador da Ju pifou recentemente e o orçamento do conserto foi desconsolador: 400 dólares. Isso é mais da metade do que gastamos, por pessoa, em um mês.
Daí, o impacto positivo em contar com a reserva financeira de emergência. Falamos mais a respeito dela em nosso post sobre planejamento financeiro para nômades digitais. Dá uma olhadinha, depois!
O nomadismo digital pode remover a moldura ao seu redor
Deu para perceber que existem, sim, desafios em ser nômade digital, mas que são superáveis?
Lembrando que você tem outro elemento que se sobressai contra qualquer perrengue: a sua vontade de explorar o mundo além do horizonte de dentro do seu escritório.
Viver como nômade digital é possível. E os desafios são gradualmente menores, embora seja comum reencontrá-los em um novo país ou ao mudar a rotina. Mas, aí, você também já tem mais experiência em lidar com eles. E isso deve ser levado em conta.
Os primeiros passos para se tornar nômade digital
E aí, você é uma das pessoas que também acredita ser possível superar os desafios de ser nômade digital? Então, aproveite para conhecer mais sobre o assunto!